Quando um sacerdote disse há cerca de uma semana atrás: “preparem-se que durante oito dias vão ver umas pessoas de roupas estranhas a andar por aí”, certamente ninguém tinha percebido muito bem o que essa chamada de atenção quereria dizer. Agora, já todos entendem pois fechou-se a iniciativa que cultivou o conhecimento e enalteceu “a vida consagrada no coração da Evangelização – 50 anos depois do início do Concílio Vaticano II”. O dia maior aconteceu, na quinta-feira, com a presença, pela primeira vez na Paróquia, do bispo diocesano, D. Anacleto Oliveira.
A Paróquia de Cardielos foi o ponto de encontro para os consagrados da Diocese de Viana do Castelo que possui 17 institutos de vida consagrada: uns contemplativos (Monjas Carmelitas); outros Apostólicos (Salesianas, Irmãs Resparadoras Missionárias da Santa Face, Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, Irmãs Angélicas de S. Paulo, Teresianas, Irmãs Missionárias do Espírito Santo, Espiritanos, Missionários Passionistas; Ordem dos Padre Carmelitas); e ainda outros seculares (Cooperadoras da Família, Caritas Christi, Voluntárias de D. Bosco, Servas do Apostolado, Lucerna Ardente, Chama Hospitaleira).
Na eucaristia de encerramento da semana consagrada, que decorreu de 28 de janeiro a 2 de fevereiro, compareceram os representantes da maioria dos institutos que renovaram os votos de consagração (castidade, pobreza e obediência) diante do representante máximo da Diocese.
Em dia de Apresentação do Senhor foi com fé que os consagrados alegremente testemunharam a alegria de servir a Deus no rosto do irmão, sabendo que “os consagrados fazem da sua vida o anúncio permanente do Evangelho”, como explicou na homilia o senhor Bispo.
Ser consagrado é mais do que uma opção de vida, é acima de tudo ouvir o chamamento e dar a resposta. “Os consagrados fazem esta diferença de luz: dão luz e reativam-na nas outras pessoas”, explicou Ricardo Oliveira, que se encontra no ano pastoral, seguindo os seus estudos no seminário.
Os seminaristas, 16 entre os do seminário menor e do ano pastoral, e seus procuradores marcaram também presença na celebração. A presença não teve a ver com um mero cumprir de calendário de atividades, mas sim com a vontade de incutir nos jovens uma visão acertada da vida consagrada. “Vim de livre vontade”, confidenciava-nos os jovens seminaristas, enquanto um dos prefeitos, senhor Padre Ricardo, atentou que a presença no dia do consagrado deve-se também “ao facto de no seminário termos consagrados e jovens que se pretendem consagrar. Assim, serve de incentivo e para os ir envolvendo neste ambiente de luz”.
Para o senhor Bispo sobressaiu a luz que vem da própria Paróquia, isto porque “vim de noite e em cima da hora, mas espero voltar em breve de dia e com tempo”. Olhando ao comportamento das pessoas e à recetividade que tiveram o senhor Bispo foi peremtório ao destacar que “as crianças estiveram tão atentas durante toda a celebração que fiquei impressionado”.
Desta breve passagem por Cardielos ficou um voto de confiança ao trabalho realizado por paroquianos e Pároco. “Parto do pressuposto que todas as Paróquias são ativas, porém pelos exemplos que tenho de algumas pessoas daqui e da prestação do Pároco é impossível que a Paróquia não mexa”, frisou ao Paróquia de Cardielos D. Anacleto.
A presidir a uma celebração com cerca de uma centena de consagrados , o Pontífice não deixou de destacar ainda o papel dos consagrados que, ao terem uma semana dedicada à causa, “vincam o testemunho de Cristo onde quer que se encontrem”. Na Diocese, apesar de existir esta diversidade de Institutos, os consagrados não são tantos como noutros locais, em contrapartida há muitos que são naturais de Viana e estão espalhados pelo país e pelo mundo, regozijou-se D. Anacleto.
Como transmitiu à assistência na eucaristia dominical, de 29 de janeiro, a irmã Helena, das irmãs Espiritanas, “o missionário é o sempre disponível. Mesmo que às vezes seja difícil anunciar o Evangelho, há uma força que impele a continuar em missão, essa força é a oração de todos.”
Precisamente, a oração moveu as pessoas do quente do lar para a igreja paroquial para orarem também pelos consagrados. A eucaristia da apresentação do senhor começou como de costume com procissão de velas, às 19h00, da capela da ressurreição. O cortejo teve a participação especial do senhor Bispo, sacerdotes, irmãs, da cruz paroquial, da catequese e de toda a assembleia que resistiu ao frio tudo pelo “aparecimento de uma nova doutrina e com tanta autoridade”.
O Salvador faz dos crentes luz para os outros
A doutrina de Jesus Cristo faz de todos os homens e mulheres luz do mundo e sal da terra. A missão do crente é reconhecer, como o velho Simeão, Jesus como o Filho de Deus que aquece a humanidade”, explicou calmamente na eucaristia D. Anacleto.
Em Cardielos, os consagrados não tiveram dificuldade maior em anunciar o Evangelho e saíram bem impressionados com “o acolhimento, abertura e participação ativa de crianças, jovens, adultos e mais velhos”, sublinhou a irmã Lurdes, reparadora da Santa Face.
Na eucaristia, solenizada pelo Grupo Coral da Paróquia de S. Tiago de Cardielos e um pouco mais demorada que o normal, mas vivida com intensidade máxima, a catequese foi mostrando os frutos de uma semana de trabalho. Entusiasmados os adolescentes do 10º ano deram voz à Oração dos Fiéis. Por seu lado, os do 9º, 8º, 7º e 6º anos encenaram e lembraram a consagrados, e não só, que “vós sois o sal da terra e luz do mundo”. Em ação de graças toda a assistência recebeu uma velinha para iluminar a sua vida e a dos outros, enquanto isso os consagrados receberam o sal, dado que a missão é clara e a opção dos consagrados é firme: “ser no mundo sal”. “Ainda há uma falsa visão do consagrado e do religioso porque, na verdade, é alguém que se entrega a Deus para servir os irmãos. É no rosto do irmão que se vê Deus, então não é alguém triste e não realizado, pelo contrário transborda alegria de viver”, vincou a irmã Lurdes.
As consagradas da terra, Rosa Cândida e Maria, estavam naturalmente contentes com a demonstração de fé a que assistiram. Com o término da Eucaristia chegou pela voz do senhor Padre Vítor um novo desafio que leva a semear no coração das pessoas a necessidade de oração.
Agradecendo ao senhor Bispo a presença amiga e aos consagrados todo o trabalho e empenho nesta semana, o Sacerdote explicou o lançamento de uma nova rubrica, no site da Paróquia, em que as pessoas são convidadas a partilharem orações antigas para que se eternizem, já que é pela oração que se estabelece uma caminho direto para o Pai. O próprio D. Anacleto foi desafiado a enviar a sua e prometeu que, logo que possível, fará uma até porque a oração deve ser algo sentido e muito pessoal.
Não foi preciso pedir a intercessão de Deus para no final surgir um convívio na cave do Centro Social onde consagrados e comunidade conversaram, trocaram experiências e puderam petiscar algumas iguarias. A semana do consagrado terminou em festa, perto das 22h00, e Rosa Cândida não teve dúvidas em afirmar “foi maravilhoso, é um orgulho sentir esta união da Paróquia e ainda que foi tudo preparado com tanta alegria, empenho e entusiasmo”.
Consagrados testemunham perto das crianças e jovens
Mesmo assim, a semana do consagrado não foi feita de apenas um dia. E se este traz muito que contar, só foi possível porque se foram desenrolando durante a semana atividades que permitiram este desfecho. Os consagrados, sobretudo Passionistas, irmãs da Santa Face, Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, Salesianas e Espiritanas, presenciaram a todos os atos religiosos existentes na Paróquia durante esta semana. Além da presença nas eucaristias, tiveram um contacto muito próximo e estreito com catequese e catequistas, indo ás várias sessões para lembrar que é importante dar e saber dar-se, “apreciando a presença de Deus no meio de nós ”, salientou Frei João.
“A aposta foi grande, mas encontramos para esta semana tudo muito motivado até pelo trabalho de um padre jovem e com muito que dar”, felicitou a irmã Lurdes.
Se à partida Cardielos foi escolhido por uma questão de rota e recursos disponíveis, o Presidente diocesano da Conferência dos Institutos Religiosos, Paulo Correia, dos Passionistas, afirma agora, à saída, que “foi muito bom desde a catequese à comunidade. A celebração de hoje mostra que o trabalho de uma semana não foi em vão, houve motivação”. Assim, “das coisas que mais gostei foi da disponibilidade das pessoas para trabalharem para a Igreja e, logo no primeiro contacto notei isso. (...) Neste sentido obviamente só posso dizer que voltaremos assim que pudermos”.
A comunidade certamente os receberá de braços abertos porque a satisfação transparecia sublinhando acessibilidade e presença amiga que o senhor Bispo deixou ficar.
As semanas do consagrado “servem também para o dar conhecer este modo de vida dentro até da própria Igreja. Há uns anos era só um dia, era a missa e pouco mais, mas é importante o envolvimento das Paróquias para que mais possam ser chamados”, rematou o senhor Padre Paulo Correia.
O colega de instituto, senhor Padre Nuno, ainda acrescentou que estas semanas “servem para contar às pessoas o que os consagrados fazem e espicaça-las para que possam pensar no que Deus quer delas. Portanto, é uma lufada de ar fresco que desafia os mais novos a oferecerem-se por inteiro, entregando-se de forma radical”, confidenciou com uma visão muito positiva das pessoas e do acolhimento que Cardielos foi capaz de fazer.
Depois desta semana intensa fica lançada a semente para que mais possam fazer a opção de deixar tudo e seguir Jesus, pois “vinde comigo e farei de vós pescadores de Homens”.
Marisa Ribeiro
*Escrito ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico