“Acredito que há alguém superior a nós” – Manuela Machado

A celebrar as bodas de prata da conquista da medalha de ouro nos jogos olímpicos de Gotemburgo não podíamos deixar de falar com a referência no mundo do atletismo que o é Manuela Machado.

Cardielense de gema, nascida a 9 de Agosto de 1963, cedo o irmão José Albino viu nela uma “maria-rapaz”. Além do mais, foi daquelas que mais tardiamente se integrou no meio do atletismo, já com 19 anos. A revelação deste talento prodígio começou apenas em 1984 nas distâncias curtas. No entanto é mesmo pela longa e frutífera caminhada nas maratonas que Manuela deixa escrito o seu nome na história do atletismo português.

Manuela Machado continua hoje a dedicar-se de corpo e alma ao seu desporto de eleição. Reconhecendo isso, a Câmara Municipal de Viana do Castelo distinguiu a atleta como cidadã de honra da cidade. “A Manuela Machado é merecedora de todas as nossas atenções pelo entusiasmo, profissionalismo e amor que dedicou e continua a dedicar ao atletismo. Neste momento, é a grande fonte de inspiração para largas centenas de jovens vianenses, pois através do seu exemplo e do seu trabalho na autarquia, consegue dinamizar um ambicioso programa concelhio da prática do atletismo”, quem o afirma é o presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo, José Maria Costa.

Como é natural, muitos dos jovens com quem Manuela trabalha são da sua freguesia. É comum e regular, ao final da tarde, ver a atleta treinar na estrada nacional 202 com um grupo de outros companheiros deste desporto.

A propósito deste momento marcante Manuela Machado vê nascer o livro que lhe é dedicado e que se intitula Manuela Machado 20 anos de Campeã, de Luís Lopes. Ao longo de cerca de 250 páginas encontra-se registado o percurso da campeã, integrando um lote de fotografias nunca antes divulgado.

Se há quem diga que a felicidade de um homem passa por plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro, nós dizemos que a felicidade da Manuela passa por fazer maratonas, ensinar os mais jovens e, agora, ter um livro.

É sinal que a atleta é reconhecida pelo trabalho que desenvolve. No livro das suas conquistas, a Cardielense conta com o depoimento de várias pessoas que estão ligadas à sua vida no atletismo. “Prazer é recordar o que de mais autêntico e genuíno existe na Manuela. É falar de uma Campeã do Mundo nas Pistas e também na Vida. É lembrar a simplicidade e a autenticidade. O seu querer, a sua alegria, a sua determinação. E, sobretudo, o prazer que sentia em competir nos grandes campeonatos em representação do seu país. E, tão importante como os êxitos desportivos, é constatar que a Manuela venceu nos palcos da vida. Nunca precisou de se colocar em pontas de pés, nem de atropelar ninguém para ser a grande Senhora que, reconhecidamente foi, é e continuará a ser. Sempre igual a si própria: simples, divertida, feliz e, sobretudo, detentora de uma força mental difícil de igualar”, confidencia no livro a treinadora de Manuela, Sameiro Araújo.

Muitos são os familiares, amigos, colegas, empresários e personalidades ligadas à Federação Portuguesa de Atletismo que muito têm a dizer de Manuela Machado, que teve na mãe de todas as maratonas, a de Gotemburgo, a maior consagração.

Recuamos a 5 de Agosto de 1995 e à terceira participação de Manuela na maratona dos campeonatos mundiais para encontrar o rosto de uma campeã numa maratona que, segundo se veio a descobrir teve menos 400m, mas que nem por isso invalidou a conquista de Manuela. Sobre essa questão a atleta demonstrou mais uma vez um grande sentido de esforço, humor e simplicidade. “Faltam 400m? Se quiserem, ainda os vou fazer… Não tenho culpa de ter corrido 400m a menos” (p. 117).

Com um enorme sorriso Manuela foi recebida em apoteose na sua terra natal. “Manuela partiu a pensar na medalha de ouro. E ganhou-a. Terminou bem, descontraída, feliz”, lê-se numa das notícias da época.

Certamente muitos se lembram deste momento. Na rua em que vive Manuela, e que mais recentemente lhe herdou o nome, as pessoas aguardavam a chegada da campeã e o atletismo era o centro de todas as atenções, capa de jornais e motivos de reportagem com directos televisivos. Numa das faixas que se lia no aeroporto Sá Carneiro estava escrito: “Cardielos ama-te”. Foi aí que a festa durou até ao fim do dia. Lê-se ainda que “a festa era de gente humilde, mas digna”.

Muitos ainda recordam o momento e Manuela também: “São momentos da minha vida que ficarão para sempre marcados e sinto que a gente de Cardielos sempre esteve comigo a apoiar-me”, contou-nos.

Sabemos pois que as conquista não caem do céu. Manuela trabalhou para colher os frutos do seu esforço. “Temos de saber gerir o nosso corpo e levá-lo só até onde podemos ir”, aconselha. Em Atlanta, por exemplo, as pernas não deixaram Manuela alcançar o sonho de sair vitoriosa, ficando-se pelo 7º lugar e com a primeira grande desilusão. Em Atenas, na 22º maratona, e volvidos dois anos, Manuela conquistou uma prata com sabor a ouro, significando a terceira grande medalha em escassos quatro anos.

Em 1998 Manuela Machado via o seu nome associado a um complexo desportivo do atletismo da cidade de Viana, espaço que foi recentemente alvo de obras e que “é uma mais valia para o atletismo, visto que foram feitas as obras para que se possa organizar competições a nível nacional e internacional, o que até aqui não era possível. Também acho que com este projecto de atletismo em que estou integrada se possam trazer mais jovens para o atletismo e daqui a 20 anos possam ser eles a estar no lugar mais alto do pódio”, completa a atleta que tem feito um trabalho muito próximo com as escolas potenciando a modalidade.

No ano seguinte, 1999, em Londres, Manuela Machado alcança o seu recorde pessoal na maratona 2h25m09s. Novamente uma sétima posição que foi uma das que mais vezes ficou escrita nas prestações de Manuela, e curioso é o facto de ser o número da perfeição e da totalidade.

Totalidade que nos lembra que até os melhores atletas enfrentam grandes dificuldades. Como aquela que a Manuela enfrentou em Sydney, já no ano 2000. Corrida esta que Manuela esteve na eminência de não fazer por estar, nada mais nada menos, do que 41ºC de febre. Tristeza, consternação, desilusão, dores, mas Manuela decide correr contra a vontade de todos os médicos, mas por acreditar que tinha de representar todo um país. José Machado acompanhou muitos desses quilómetros com gritos de incentivo, para fazer esquecer os riscos que ela corria. Terminou em 21º lugar, deu tudo por tudo e esta é uma posição notável que surge após arriscar a sua vida na estrada para representar Portugal. Manuela é uma atleta com verdadeiro espírito olímpico onde o esforço, a força e a determinação fazem prodígios.

Mesmo com febre ela sabia que ia conseguir correr, até porque Manuela Machado é uma mulher de convicções e acredita que “há Alguém superior a nós”. A fé em Deus move montanhas e também dá, naturalmente, alento aos atletas. Fé e desporto podem ser também uma combinação perfeita.

As maratonas de Manuela são actualmente outras procurando deixar o seu legado, os seus conhecimentos e a sua formação humana aos mais novos. Ao mesmo tempo, e com 52 anos, não arruma as sapatilhas seja por uma causa nobre, por desporto, pelo treino diário ou pelo que quer que seja, Manuela Machado continua a correr e continua a ser difícil apanhá-la.

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